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Maduro e a Venezuela

Resumo

Nicolás Maduro governou a Venezuela de 2013 até 03/01/2026, quando foi capturado em Caracas por forças dos Estados Unidos e levado a Nova York, onde responde por narcotráfico. O julgamento está marcado para junho de 2027. Várias acusações usadas para justificar o ataque caíram ou nunca foram provadas: o próprio Departamento de Justiça deixou de apontá-lo como chefe do "Cartel de los Soles", a inteligência americana concluiu que o governo dele não dirigia o Tren de Aragua, a DEA nunca listou a Venezuela como origem do fentanil, e um relator da ONU chamou de execuções extrajudiciais os bombardeios contra barcos no Caribe, feitos sem prova de que levavam drogas. Nem os documentos da CIA divulgados por Trump confirmaram fraude eletrônica em larga escala nas eleições venezuelanas de 2004 a 2020. Uma relatora da ONU concluiu que as sanções, sobretudo as dos EUA, tiveram efeito "devastador" sobre a população.

No Brasil, a direita usa Maduro contra Lula. A história de que ele financiou o PT vem de uma carta de 2021 do ex-chefe de inteligência Hugo Carvajal, arquivada na Espanha por falta de provas, e a delação dele nos EUA não cita Lula nem o PT. O dinheiro do BNDES para obras na Venezuela foi pago em reais, no Brasil, a empresas brasileiras, num programa criado por FHC. Lula não reconheceu a vitória de Maduro em 2024 sem as atas e barrou a entrada da Venezuela no BRICS, mas condenou a captura como uma afronta à soberania e ao direito internacional.

Caso em andamento

O processo contra Maduro em Nova York não foi julgado. A página está atualizada até 27/09/2026.

As acusações contra Maduro que não se sustentam

  • 06/01/2026 — o "Cartel de los Soles" sumiu da denúncia: na acusação de 2020, o termo "Cartel de los Soles" aparecia 33 vezes, e Maduro era apontado como líder da organização. Na nova versão, apresentada depois da captura, o termo aparece só duas vezes, em citações menores, sem nenhuma menção à liderança de Maduro (Agência Brasil, 06/01/2026).
  • Abril de 2025 — o Tren de Aragua: Trump usou a gangue para invocar uma lei de guerra de 1798 e acelerar deportações. Uma avaliação da própria inteligência americana, que circulou em abril e foi liberada depois, concluiu que o governo Maduro "provavelmente" não dirigia as operações do Tren de Aragua nos EUA e que tratava a gangue como uma ameaça, segundo a CNN (CNN, 06/05/2025).
  • 07/01/2026 — o fentanil e a cocaína: nenhum relatório anual da DEA de 2017 a 2025 lista a Venezuela como produtora ou rota de fentanil, que vem do México com insumos da China. A Venezuela é rota de passagem de parte da cocaína colombiana, mas a maior parte da cocaína que entra nos EUA não passa por lá (PolitiFact, 07/01/2026).
  • 13/03/2026 — os barcos bombardeados: o relator especial da ONU para o combate ao terrorismo, Ben Saul, acusou os EUA de "execuções extrajudiciais em série" nos bombardeios contra barcos no Caribe e no Pacífico, que tinham deixado 151 mortos. O governo Trump nunca apresentou provas de que os barcos levavam drogas (CartaCapital, 13/03/2026).
  • 15/09/2021 — as sanções: a relatora especial da ONU Alena Douhan apresentou o relatório final sobre as sanções contra a Venezuela, de efeito "devastador". Segundo ela, principalmente por causa das sanções dos EUA, o país ficou sem conseguir comprar equipamentos e insumos para manter a eletricidade, o gás, a água, o transporte público e as telecomunicações (Brasil de Fato, 15/09/2021).
  • 16/07/2026 — a fraude que a CIA não confirmou: o governo Trump divulgou documentos da CIA sobre as eleições venezuelanas de 2004 a 2020 para acusar Maduro de fraude com as máquinas da Smartmatic. Os documentos falam de um plano para alterar votos em 2012, mas concluem que "não houve fraude eletrônica em larga escala, apesar de relatos de planos de manipulação", e que nem a Smartmatic nem o governo venezuelano tinham como manipular eleições fora da Venezuela (Lupa, 17/07/2026). Flávio Bolsonaro usou esses documentos para mentir sobre as urnas brasileiras (ver A mentira da fraude nas urnas).

O sistema eleitoral elogiado por Jimmy Carter

O calote da Venezuela no BNDES

  • 1998 a 2015 — o dinheiro ficou no Brasil: o financiamento do BNDES à exportação de serviços de engenharia foi criado no governo FHC, em 1998, e o primeiro contrato para a Venezuela saiu em 2001, ainda com FHC (Brasil de Fato, 08/02/2023). O BNDES não empresta dinheiro a outro país: libera o dinheiro em reais, no Brasil, para a empresa brasileira, depois de comprovada a exportação. Entre 2003 e 2018, esse apoio foi 1,3% do que o banco desembolsou, contra 36% em infraestrutura (BNDES).
  • O calote e quem pagou: a Venezuela recebeu US$ 1,5 bilhão em financiamentos e deixou de pagar prestações que o Fundo de Garantia à Exportação, da União, já indenizou em US$ 813 milhões, até março de 2026 (BNDES). Quando o BNDES suspendeu os desembolsos para as empreiteiras investigadas, em 2015, a Venezuela estava em dia. Os atrasos vieram com a crise e com as sanções dos EUA, a partir de 2017, e, segundo analistas, pioraram quando Bolsonaro rompeu relações com a Venezuela, em 2019. De 2000 a 2021, o Brasil acumulou com a Venezuela um superávit comercial de US$ 41,4 bilhões, 60 vezes a dívida (Brasil de Fato, 08/02/2023).

O dinheiro de Maduro para Lula

  • 2021 — a carta de Carvajal: preso na Espanha, o ex-chefe de inteligência venezuelano Hugo Carvajal escreveu a um juiz que a Venezuela tinha financiado partidos de esquerda por 15 anos, entre eles o PT. A investigação foi arquivada na Espanha porque ele não apresentou provas, só "narrações de terceiros" (Estadão Verifica, via Terra, 08/01/2026). Para a Justiça espanhola, a carta era uma tentativa de atrasar a extradição dele para os EUA (E-farsas, 18/10/2025).
  • 2025 — a delação nos EUA não cita Lula: Carvajal se declarou culpado de narcoterrorismo nos EUA e fez delação. Boa parte da denúncia contra Maduro se apoia nela, mas ela não menciona financiamento de partidos, nem o PT, nem Lula, e ele também não falou disso na carta que mandou a Trump (Estadão Verifica, via Terra, 08/01/2026).
  • 22/10/2025 — Milei espalha a mentira: a versão de que Carvajal acusou Lula voltou a circular depois que Javier Milei e outros políticos de direita compartilharam um texto de um site conservador espanhol. Um só post somou mais de 70 mil curtidas. "Insustentável", concluiu a Lupa (Lupa, 22/10/2025).

Lula e Maduro

  • Julho a outubro de 2024 — sem atas, sem reconhecimento: Lula não reconheceu Maduro como vencedor da eleição de 28/07/2024 e cobrou a publicação das atas oficiais. Na cúpula de Kazan, o Brasil barrou a entrada da Venezuela no BRICS, e a Venezuela retirou seu embaixador de Brasília (Al Jazeera, 30/10/2024). O governo Maduro chamou o veto de "hostil" e comparou o Itamaraty de Lula ao de Bolsonaro (Brasil de Fato, 25/10/2024).
  • 03/01/2026 — contra a captura: Lula disse que os bombardeios e a captura de Maduro "ultrapassam uma linha inaceitável", são uma "afronta gravíssima à soberania" da Venezuela e representam "um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional". Lembrou que o Brasil repudia ações militares unilaterais também em outros conflitos (Brasil de Fato, 03/01/2026).

A captura e o processo

  • 03/01/2026 — a captura: forças dos EUA bombardearam a Venezuela e capturaram Maduro e a mulher dele, Cilia Flores (Brasil de Fato, 03/01/2026). Em maio de 2020, na Operação Gedeon, mercenários da empresa americana Silvercorp já tinham tentado entrar na Venezuela por mar para capturar Maduro, e dois ex-militares americanos foram presos (Wikipedia; mais links em A Operação Gedeon (2020)).
  • 22/07/2026 — julgamento marcado: o juiz federal Alvin Hellerstein marcou para 01/06/2027 o julgamento de Maduro e de Cilia Flores em Nova York. A defesa vai pedir o arquivamento, alegando que Maduro tem imunidade de chefe de Estado (InfoMoney, 22/07/2026).

As sanções e a sabotagem

As tentativas de derrubar Maduro

A invasão da embaixada em Brasília (2019)

A Operação Gedeon (2020)

Hugo Chávez

Dados e debates sobre a Venezuela

Ver também