Eleições 2022¶
Resumo
Lula derrotou Bolsonaro com 60,3 milhões de votos, a maior votação da história do Brasil, contra um presidente que pôs a máquina do Estado a serviço da reeleição. Às vésperas da campanha, um "estado de emergência" aprovado no Congresso acrescentou R$ 200 ao Auxílio Brasil só de agosto a dezembro de 2022, e o orçamento que o próprio governo Bolsonaro mandou para 2023 previa R$ 405. O STF depois derrubou a emenda por violar a igualdade entre os candidatos, e o TSE tornou Bolsonaro inelegível também por transformar o 7 de Setembro em comício. O Ministério Público do Trabalho recebeu mais de 3 mil denúncias de patrões que pressionavam empregados a votar.
Na última semana, Roberto Jefferson recebeu a PF com mais de 60 tiros e granadas, e Carla Zambelli perseguiu um jornalista com uma arma em São Paulo. No dia do segundo turno, mesmo com a proibição do TSE, a PRF de Silvinei Vasques, que pediu voto em Bolsonaro no Instagram, parou no Nordeste, onde Lula liderava, mais que o dobro dos ônibus parados no Centro-Oeste, a segunda região da lista. Silvinei foi condenado a 24 anos e 6 meses e tentou fugir do Brasil com passaporte falso. Bolsonaro ficou 44 horas calado e não reconheceu a derrota. Bolsonaristas tentaram invadir a sede da PF e deixaram uma bomba perto do aeroporto de Brasília, e Bolsonaro viajou para os Estados Unidos antes da posse. Em 2025, o STF o condenou a 27 anos e 3 meses pela trama golpista.
O resultado¶
- 02/10/2022 — Lula na frente no primeiro turno: Lula teve 57.259.504 votos (48,43% dos válidos), contra 51.072.345 (43,20%) de Bolsonaro (TSE, 04/10/2022).
- 30/10/2022 — a maior votação da história: Lula venceu com 60.345.999 votos (50,90% dos válidos), contra 58.206.354 (49,10%) de Bolsonaro (TSE, 31/10/2022). Foi "o maior número de votos que um político já recebeu por voto popular no Brasil", 2 milhões a mais do que o recorde do próprio Lula, de 2006 (Poder360, 31/10/2022).
A máquina pública na campanha¶
- 14/07/2022 — o "estado de emergência" com prazo eleitoral: a Emenda Constitucional 123, a "PEC Kamikaze", reconheceu um estado de emergência pela alta dos combustíveis e liberou um acréscimo de R$ 200 no Auxílio Brasil "no período de 1º de agosto a 31 de dezembro de 2022", além de auxílio de R$ 1.000 por mês a caminhoneiros, ajuda a taxistas e vale-gás extra (Emenda Constitucional 123/2022). O dinheiro começava a sair dois meses antes da eleição e acabava junto com o mandato de Bolsonaro.
- 31/08/2022 — o orçamento de Bolsonaro cortava o benefício: o governo mandou ao Congresso o orçamento de 2023 com Auxílio Brasil de R$ 405 em média, R$ 195 a menos do que Bolsonaro prometia na campanha (InfoMoney, 31/08/2022). Depois da derrota, posts atribuíram a Lula o orçamento de R$ 405, e o Aos Fatos desmentiu: a proposta "é de autoria da gestão de Jair Bolsonaro" (Aos Fatos, 02/11/2022).
- 01/08/2024 — o STF derruba a emenda: para a maioria do plenário, a emenda "violou o princípio da igualdade de oportunidades entre os candidatos" ao permitir a distribuição de benefícios em ano de eleição. Ficaram vencidos os dois ministros indicados por Bolsonaro, André Mendonça e Nunes Marques. Quem recebeu os benefícios não precisa devolver (STF, 01/08/2024; Agência Brasil, 01/08/2024).
- 07/09/2022 — o Bicentenário virou comício: em Brasília, minutos depois do desfile oficial da Independência, Bolsonaro subiu num trio elétrico no mesmo local e fez campanha. Em 31/10/2023, o TSE declarou Bolsonaro e o vice dele, Braga Netto, inelegíveis por abuso de poder político e econômico e multou Bolsonaro em R$ 425,6 mil pelo uso da estrutura pública na campanha (Conjur, 31/10/2023).
O ataque às urnas¶
- 18/07/2022 — os embaixadores: Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para atacar as urnas, com transmissão da TV Brasil. Por essa reunião, o TSE o tornou inelegível até 2030, por 5 votos a 2 (Agência Brasil, 30/06/2023).
- Novembro de 2022 — nenhuma fraude: a fiscalização das Forças Armadas, sob o ministro da Defesa de Bolsonaro, não apontou fraude, e o PL foi multado em R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé ao pedir a anulação de votos só do segundo turno (Agência Brasil, 09/11/2022; Migalhas, 24/11/2022). A linha do tempo completa está em A mentira da fraude nas urnas.
Pressão e violência na reta final¶
- Outubro de 2022 — o voto de cabresto nos locais de trabalho: até o fim da votação, o Ministério Público do Trabalho registrou 2.549 denúncias de assédio eleitoral contra 1.948 empresas, 12 vezes mais do que as 212 de 2018 (Estadão Conteúdo, via Banda B, 31/10/2022). O relatório entregue ao TSE em dezembro somava 3.206 denúncias (Radioagência Nacional, 16/12/2022). Em agosto de 2026, o TST condenou uma madeireira do Paraná e dois frigoríficos de Minas Gerais por coagir empregados a votar em Bolsonaro, com ameaça de demissão e promessa de churrasco e de pernil se ele vencesse (Conjur, 20/08/2026).
- 23/10/2022 — Jefferson recebe a PF a tiros: alvo de uma ordem de prisão de Alexandre de Moraes depois de chamar a ministra Cármen Lúcia de "Bruxa de Blair", o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) atirou e jogou granadas contra os agentes da PF, e dois ficaram feridos. Bolsonaro disse não ter fotos com ele, "mas há registros de pelo menos 4 encontros com os 2 no Palácio do Planalto" (Poder360, 23/10/2022). Jefferson deu mais de 60 tiros e vai a júri popular por tentativa de homicídio dos policiais (Conjur, 28/04/2025).
- 28/10/2022 — o Auxílio Brasil e o voto no 22: dois dias antes do segundo turno, o Profissão Repórter, da Globo, flagrou em Coronel Sapucaia (MS) uma reunião só de beneficiários do Auxílio Brasil. "Falaram sobre o Auxílio Brasil, mas a outra parte foi só sobre política, que teria que votar no 22 porque senão não teria mais verba", contou uma moradora a Caco Barcellos. Outra disse ter ouvido que, no fim da reunião, o prefeito Rudi Paetzold (MDB) dava R$ 50 a cada um. Um homem ligou para a equipe e sugeriu que ela deixasse a cidade por ser "perigoso" (Correio Braziliense, 02/11/2022; Brasil 247, 02/11/2022). A Globo só exibiu a reportagem em 01/11, dois dias depois da eleição (Jornal Já, 06/11/2022). O prefeito e a secretária de Assistência Social, Ivone Paetzold Soares, foram processados por coação eleitoral, mas o TRE-MS os absolveu em julho de 2026 por falta de provas: segundo o relator, as testemunhas não confirmaram ameaças diretas de perda dos benefícios (Correio do Estado, 16/07/2024; Capital News, 07/07/2026).
- 29/10/2022 — Zambelli de arma em punho: na véspera do segundo turno, a deputada Carla Zambelli (PL-SP) perseguiu o jornalista Luan Araújo com uma arma nos Jardins, em São Paulo. O STF a condenou a 5 anos e 3 meses de prisão e à perda do mandato. Só os dois indicados de Bolsonaro, Nunes Marques e André Mendonça, votaram para absolvê-la do porte ilegal de arma (STF, 25/08/2025). Para o relator, Gilmar Mendes, a deputada "persegue em via pública, com arma de fogo, indivíduo desarmado de corrente partidária adversa, na véspera das eleições" (Gazeta do Povo, 21/03/2025).
O dia da votação: a PRF contra o eleitor do Nordeste¶
- 29/10/2022 — a proibição: na véspera do segundo turno, Moraes, presidente do TSE, proibiu "qualquer operação da Polícia Rodoviária Federal relacionada ao transporte público, gratuito ou não, disponibilizado às eleitoras e eleitores", sob pena de responsabilização criminal do diretor-geral da PRF (TSE, 29/10/2022).
- 30/10/2022 — o diretor da PRF pede voto: depois da proibição, o diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, postou no Instagram a bandeira do Brasil com a frase "Vote 22. Bolsonaro presidente" e depois apagou (Metrópoles, 30/10/2022).
- 30/10/2022 — os ônibus parados no Nordeste: só no dia do segundo turno, a PRF parou 324 ônibus em estradas do Nordeste, contra 152 no Centro-Oeste, 79 no Sudeste, 76 no Norte e 65 no Sul, segundo dados do Ministério da Justiça. As blitze se concentraram onde Lula tinha vantagem e só terminaram por ordem de Moraes (CartaCapital, 16/08/2024). Um TRE do Nordeste apontou "discrepante abstenção" nas regiões das blitze (CNN Brasil, 30/07/2024).
- 16/08/2024 — Torres e Silvinei indiciados: a PF indiciou o ex-ministro da Justiça Anderson Torres e Silvinei por impedir o trânsito de eleitores no Nordeste. Silvinei tinha ficado preso de agosto de 2023 a agosto de 2024 (CartaCapital, 16/08/2024).
- 16/12/2025 — condenado a 24 anos e 6 meses: por unanimidade, a Primeira Turma do STF condenou Silvinei e outros quatro réus do núcleo que cuidou da minuta do golpe, do plano de assassinato de autoridades e da "articulação dentro da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para dificultar o voto de eleitores da Região Nordeste nas eleições de 2022" (STF, 16/12/2025).
- 26/12/2025 — a fuga: dez dias depois, Silvinei rompeu a tornozeleira eletrônica e foi preso em Assunção, no Paraguai, quando tentava embarcar com passaporte falso para El Salvador, via Panamá (Metrópoles, 26/12/2025).
Depois da derrota: do silêncio ao golpe¶
- 01/11/2022 — 44 horas calado: Bolsonaro só falou mais de 44 horas depois da derrota, num pronunciamento de dois minutos e meio em que não reconheceu a vitória de Lula e disse que os bloqueios de bolsonaristas nas rodovias eram fruto de indignação e de sentimento de injustiça com o processo eleitoral (Reuters, via Brasil 247, 01/11/2022).
- 09/11/2022 — o plano para matar Lula: o plano Punhal Verde e Amarelo, que previa matar Lula, Alckmin e Moraes, foi impresso no Palácio do Planalto (ver a página de Alexandre de Moraes).
- 12/12/2022 — o dia da diplomação: no dia em que o TSE diplomou Lula, apoiadores de Bolsonaro tentaram invadir a sede da PF em Brasília e queimaram carros e ônibus. Segundo o secretário de Segurança do DF, parte deles estava no acampamento em frente ao QG do Exército (Agência Brasil, 13/12/2022).
- 24/12/2022 — a bomba no aeroporto: o empresário George Washington de Oliveira Souza confessou ser o dono do explosivo deixado perto do aeroporto de Brasília e que planejava um atentado para o dia da posse de Lula (Metrópoles, 15/02/2025). Foi condenado a 9 anos e 4 meses, e Moraes ligou o atentado aos atos golpistas do 8 de janeiro (Agência Brasil, 10/09/2025).
- 30/12/2022 — Bolsonaro vai embora: dois dias antes da posse, Bolsonaro deixou o país rumo à Flórida e evitou passar a faixa a Lula (Al Jazeera, 30/12/2022). Oito dias depois veio o 8 de janeiro.
- 11/09/2025 — Bolsonaro condenado: a Primeira Turma do STF condenou Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito e golpe de Estado, entre outros crimes (Agência Brasil, 11/09/2025).
Ver também¶
- O roteiro da direita nas eleições: a PRF, a PEC Kamikaze e o ataque às urnas ao lado do que se repetiu nas outras eleições
- A mentira da fraude nas urnas: as acusações sem prova de Bolsonaro contra as urnas, antes e depois da eleição
- 8 de janeiro: o ataque aos Três Poderes, uma semana depois da posse de Lula
- Alexandre de Moraes: presidiu o TSE na eleição e relatou a trama golpista
- Edson Fachin e Luís Roberto Barroso: os presidentes do TSE que enfrentaram os ataques de Bolsonaro às urnas antes da campanha
- Joaquim Barbosa: o relator do mensalão que gravou vídeos para a campanha de Lula
- Bolsonarismo contra o Estado laico: Michelle Bolsonaro e o Planalto "consagrado aos demônios", em plena campanha
- Eleições 2006, quando Alckmin foi o adversário de Lula; Eleições 2014, Eleições 2018 e Eleições 2026