Eleições 1989¶
Resumo
Na primeira eleição direta para presidente depois da ditadura, Fernando Collor derrotou Lula no segundo turno por cerca de 4 milhões de votos, com a Globo do lado dele. Boni, então diretor-geral da emissora, admitiu em 2011 que a Globo cuidou da "parte formal" do debate de Collor: tirou a gravata, pôs suor com "uma glicerinazinha" e deixou na mesa pastas de "supostas denúncias contra o Lula" que estavam vazias. No dia seguinte ao último debate, depois de uma contraordem, o Jornal Nacional levou ao ar uma edição feita para mostrar Collor superior, diferente da que o Jornal Hoje tinha exibido, e uma pesquisa com 490 telespectadores que dava a Collor o melhor desempenho, por 44,5% a 32%. A pesquisa não era do Ibope, que a Globo usava, mas do Vox Populi, o instituto que assessorava a campanha de Collor, fundado pelo filho do cunhado dele. Um estudo de economistas da USP e do Insper estimou que a cobertura tirou de Lula entre 1,9 e 8,6 pontos percentuais dos votos. O próprio Collor reconheceu que a relação com a Globo "ajudou bastante".
Na reta final, a campanha de Collor pôs no ar Miriam Cordeiro, mãe de uma filha de Lula, para acusá-lo de racismo e de ter proposto um aborto. Uma jornalista que trabalhava no programa de Collor deixou a campanha e revelou que Leopoldo Collor, irmão do candidato, tinha comprado o depoimento por 200 mil cruzados novos. Depois da eleição, a própria Miriam contou ao Jornal do Brasil que a campanha de Collor "pagava tudo". Às vésperas do segundo turno, a polícia apresentou os sequestradores do empresário Abilio Diniz com camisetas e material de campanha do PT, e a ligação nunca foi comprovada. Contra Lula, também circulava que um governo petista confiscaria a poupança. Quem confiscou foi Collor, um dia depois da posse. Acusado de corrupção, ele renunciou em 1992 para tentar escapar do impeachment e perdeu os direitos políticos mesmo assim. Em 2023, o STF o condenou a 8 anos e 10 meses de prisão por corrupção na BR Distribuidora.
O resultado¶
- 15/11/1989 — o primeiro turno: Collor teve 22.611.011 votos, e Lula, 11.622.673, e os dois foram para o segundo turno (Georgetown, Base de Dados Políticos das Américas; O Tempo, 30/08/2026).
- 17/12/1989 — Collor eleito: Collor teve 35.089.998 votos, contra 31.076.364 de Lula (Georgetown, Base de Dados Políticos das Américas).
A Globo do lado de Collor¶
- 14/12/1989 — o debate "produzido": em 2011, Boni contou que a campanha de Collor procurou a Globo e que ele foi chamado a "palpitar". "Então nós conseguimos tirar a gravata do Collor, botar um pouco de suor com uma 'glicerinazinha' e colocamos as pastas todas que estavam ali com supostas denúncias contra o Lula – mas as pastas estavam inteiramente vazias ou com papéis em branco." E completou: "o conteúdo era do Collor mesmo, mas a parte formal nós é que fizemos" (Pragmatismo Político, 29/11/2011). A entrevista foi ao ar no Dossiê GloboNews de 26/11/2011 (Observatório da Imprensa, 02/12/2011).
- 15/12/1989 — a edição do Jornal Nacional: a Globo fez duas edições do último debate. A do Jornal Hoje foi considerada equilibrada, "mas durante a tarde houve uma contra-ordem para mudar a edição" e "mostrar que Collor foi superior", segundo a cientista política Alessandra Aldé. O TSE negou ao PT o direito de resposta, e a Globo deixou de editar debates (Gazeta do Povo, 15/11/2009). O editor da versão do JN, Ronald de Carvalho, defende o trabalho até hoje, mas confirma que a diretora de jornalismo Alice-Maria mandou refazer a edição depois de ouvir que a primeira estava "parcial" (Metrópoles, 01/09/2024).
- 15/12/1989 — "o pior de Lula e o melhor de Collor": segundo o livro "A Globo: concorrência (1985-1998)", de Ernesto Rodrigues, o editor de política Ronald de Carvalho chegou à ilha 10 de edição, na tarde do dia 15, e disse ao editor Octavio Tostes: "A orientação é fazer uma edição com o pior de Lula e o melhor de Collor". Pelo livro, a ordem veio do diretor Alberico de Souza Cruz (Correio Braziliense, 01/10/2026). No livro da própria Globo sobre o Jornal Nacional, de 2004, Tostes disse que "não havia da parte do Ronald e do Alberico qualquer preocupação com isenção", e o diretor de jornalismo, Armando Nogueira, que "Alberico, à minha revelia, mandou fazer alterações". Ronald assumiu a culpa sozinho: "o único responsável pela edição do debate fui eu; não recebi instruções de ninguém" (Observatório da Imprensa, 19/02/2008). Parte dos depoimentos está num vídeo publicado no YouTube em 2011, que não informa a origem das gravações.
- 15/12/1989 — a pesquisa do instituto da família: no fim da reportagem sobre o debate, o Jornal Nacional perguntou "E quem venceu o debate?" e respondeu com uma pesquisa do Vox Populi feita com 490 telespectadores em 114 municípios. Collor teve o melhor desempenho para 44,5%, e Lula para 32%, e Collor também ganhou em ideias mais claras (45% a 34,1%), preparo para governar (48% a 30%) e planos de governo (45,9% a 33%). A reportagem, assinada por Alexandre Garcia, terminou dizendo que, "ao transmitir o encontro dos presidenciáveis, a televisão cumpriu mais uma vez o seu papel na democracia" (Jornal Nacional, 15/12/1989, a partir de 7:02). A Globo usou o Vox Populi "em vez de utilizar os dados do Ibope, que eram o padrão adotado pela emissora até aquele momento" (Jovem Pan, 20/08/2026). O Vox Populi assessorava a campanha de Collor (FGV CPDOC, verbete Fernando Collor) e foi fundado por Marcos Coimbra, filho do diplomata de mesmo nome casado com Leda, irmã de Collor. O pai, segundo a FGV, "foi o grande responsável pela estratégia de ação do cunhado nos debates" (FGV CPDOC, verbete Marcos Coimbra). Dois dias depois, Brizola escreveu no Jornal do Brasil que o Jornal Nacional, "ao final, divulgou números de uma 'pesquisa' de autoria de uma empresa de familiares do candidato" (Jornal do Brasil, 17/12/1989, citado por Edvaldo Sotana na Revista Fênix, 2020).
- 2019 — a edição custou votos a Lula: os economistas Alexsandros Cavgias, Raphael Corbi, Luis Meloni e Lucas Novaes, da Universidade de Gante, da USP e do Insper, usaram as diferenças de alcance do sinal das emissoras de TV pelo país para separar o efeito do debate do efeito da cobertura. Concluíram que a cobertura da emissora dominante tirou de Lula entre 1,9 e 8,6 pontos percentuais dos votos, ao mudar a percepção dos eleitores sobre quem tinha vencido o debate (FEA-USP, 2019). A versão final do estudo saiu em 2024 na revista Comparative Political Studies (Comparative Political Studies, 2024).
- 2009 — "Ajudou bastante": perguntado se a relação com a Globo o ajudou em 1989, Collor respondeu: "Ajudou, sem dúvida nenhuma ajudou. Ajudou bastante" (O Tempo, 30/08/2026).
Os golpes da reta final¶
- Dezembro de 1989 — o depoimento comprado: a campanha de Collor exibiu por mais de cinco minutos uma entrevista com Miriam Cordeiro, mãe de uma filha de Lula, que o acusou de racismo e de ter tentado convencê-la a fazer um aborto. Dias depois, Lula ganhou direito de resposta e usou parte do horário de Collor para se defender (Cidadeverde, 30/08/2018). Logo depois da exibição, Maria Helena Amaral, jornalista que participava do programa de TV de Collor, deixou a campanha e revelou que Leopoldo, irmão mais velho de Collor, "havia comprado o depoimento de Míriam por duzentos mil cruzados novos". Segundo a FGV, o comando da campanha de Collor "criou várias situações para tentar comprometer o adversário" (FGV CPDOC, verbete Fernando Collor), e o responsável pela "revelação de fatos relacionados à vida pessoal e familiar" de Lula foi o cunhado de Collor, o diplomata Marcos Coimbra (FGV CPDOC, verbete Marcos Coimbra). No livro "Notícias do Planalto", Mario Sergio Conti conta que um coordenador da campanha, Marco Paulo Fileppo, avisou Maria Helena que uma pessoa lhe entregaria 200 mil cruzados novos, equivalentes a 24 mil dólares, "que deveriam ser repassados a Miriam Cordeiro". Ela se recusou e disse a Leopoldo que pagar pela entrevista era corrupção (Viomundo, 17/10/2010).
- Depois da eleição — "Eles pagavam tudo": Miriam negou ter recebido os 200 mil, mas confirmou ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho que, 45 dias depois da vitória de Collor, estava sendo sustentada pela campanha dele (Brasil 247, 19/02/2016). Numa reportagem do Jornal do Brasil com o título "A vida confortável de Miriam Cordeiro", ela disse sobre as contas da vida particular: "Eles (equipe de campanha de Collor) pagavam tudo" (GGN, 19/01/2017).
- 11/12/1989 — o sequestro de Abilio Diniz: o empresário foi sequestrado a seis dias do segundo turno por um grupo de nove estrangeiros e um brasileiro que se identificou como do MIR, o Movimento da Esquerda Revolucionária (Aventuras na História, 11/07/2020). Depois da prisão, a polícia apresentou camisetas do PT e material de campanha de Lula que teriam sido achados com o grupo. "Embora não se tenha comprovado a relação do crime com o PT", o próprio O Globo avaliou em 2024 que o material influenciou o resultado nas urnas (Estadão, via Terra, 19/02/2024). "Colocaram camiseta nos sequestradores do PT para dizer que o PT que tinha sequestrado o Abílio Diniz", disse Lula em 2022 (Itatiaia, 18/02/2024).
- 16/03/1990 — quem confiscou a poupança foi Collor: na campanha, circulava contra Lula que um governo petista confiscaria bens e a poupança da classe média (O Tempo, 30/08/2026). Um dia depois da posse, Collor bloqueou por até 18 meses o que passasse de 50 mil cruzados novos nas cadernetas de poupança e em outras aplicações, cerca de 80% do dinheiro aplicado no país (Times Brasil/CNBC, 16/03/2026).
O fim do "caçador de marajás"¶
- 29/12/1992 — a renúncia que não salvou Collor: depois da CPMI sobre os negócios de PC Farias, a Câmara aprovou a abertura do impeachment por 442 votos a 38. Collor renunciou para tentar manter os direitos políticos, mas o Senado confirmou o impeachment (CNN Brasil, 30/06/2023).
- 31/05/2023 — condenado pelo STF: Collor foi condenado a 8 anos e 10 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Recebeu R$ 20 milhões em vantagens indevidas em contratos da BR Distribuidora, entre 2010 e 2014 (Agência Brasil, 31/05/2023).
- 24/04/2025 — preso: Moraes mandou prender Collor, que começou a cumprir a pena no dia seguinte, e o plenário do STF confirmou a ordem (Conjur, 29/04/2025). Dias depois, Moraes autorizou a prisão domiciliar humanitária, com tornozeleira, por causa de doenças graves comprovadas (STF, 2025).
Ver também¶
- O roteiro da direita nas eleições: o depoimento comprado e as camisetas do PT de 1989 ao lado do que se repetiu nas eleições seguintes
- Rede Globo: outros casos de manipulação da emissora, com o vídeo de Boni sobre o debate
- Fernando Collor de Mello
- Lula: as mentiras contra Lula, com a pesquisa que mostrou como o sequestro de Abilio Diniz foi ligado ao PT
- Eleições 1994, Eleições 2014, Eleições 2018, Eleições 2022 e Eleições 2026