Hondurasgate¶
Série de áudios vazados que expõem uma suposta articulação entre políticos de direita das Américas, com participação de Estados Unidos e Israel, para desestabilizar governos progressistas da América Latina e devolver o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández ao poder (El País). O caso veio a público em abril de 2026, publicado pelo portal hondurasgate.ch e pelo Diario Red, veículo espanhol fundado por Pablo Iglesias.
Os áudios teriam sido gravados entre janeiro e abril de 2026 em aplicativos como WhatsApp, Signal e Telegram. Entre os interlocutores estariam Hernández, o atual presidente hondurenho Nasry Asfura e outras figuras do conservador Partido Nacional de Honduras.
Antecedentes¶
- Em 2024, Hernández foi condenado nos Estados Unidos a 45 anos de prisão por tráfico de drogas, acusado de usar o cargo para escoar mais de 400 toneladas de cocaína para o país. Em dezembro de 2025, o presidente Donald Trump o indultou.
- Em julho de 2025, já circulava um áudio atribuído à conselheira eleitoral Cosette López sobre o sistema de transmissão de resultados. Um dos divulgadores era uma página falsa que imitava a Radio Cadena Voces. O jornal El Heraldo apontou indícios de manipulação por IA naquele arquivo.
- Em novembro de 2025, o Ministério Público hondurenho divulgou outros 24 áudios que implicavam López e outros atores num plano para boicotar as eleições gerais e forçar sua repetição. Os arquivos foram entregues por um conselheiro eleitoral do partido de esquerda Libre e liberados sem perícia de autenticação.
O que os áudios alegam¶
Plano em Honduras¶
Segundo o American Prospect e o El País, os áudios descrevem um plano para:
- Devolver Hernández à presidência, assassinando e prendendo adversários políticos.
- Expandir as ZEDEs (Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico), áreas com governança própria e livres de controle estatal.
- Ampliar a presença militar dos Estados Unidos em pontos estratégicos de Honduras, como a base aérea Soto Cano.
- Subornar autoridades eleitas.
- Financiar veículos de propaganda de direita com dinheiro público.
- Usar igrejas evangélicas para que "o povo esqueça o passado", segundo instrução atribuída a Hernández.
- Entregar projetos estratégicos, como o trem interoceânico, a empresas como a General Electric.
Injerência fora de Honduras¶
- Criar uma "célula de jornalismo digital" nos EUA para fabricar dossiês contra os governos de Claudia Sheinbaum (México) e Gustavo Petro (Colômbia), sem rastreabilidade até Honduras.
- Hernández afirma nos áudios que o presidente argentino Javier Milei teria contribuído com US$ 350 mil para a operação, destinada a "extirpar o câncer da esquerda" na região.
- Hernández também diz que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu foi peça-chave para seu indulto por Trump.
Relação com o Brasil¶
Os áudios não citam o Brasil como alvo — os dossiês planejados miravam México e Colômbia. Mas a rede exposta no caso tem três pontes documentadas com o país:
- Fernando Cerimedo, operador da campanha de Asfura (antes, de Milei na Argentina e de Rodrigo Paz na Bolívia), é o mesmo que atuou na narrativa de fraude eleitoral para Bolsonaro em 2022 — ação que, segundo a Reactionary International, a PF concluiu fazer parte da trama para manter Bolsonaro no poder.
- Brad Parscale, ex-coordenador da campanha de Trump, é dono da consultoria Numen, sediada em Buenos Aires e cofundada com Cerimedo, que prestou serviço à campanha de Asfura. A The Economist o chamou de "o homem do MAGA na América Latina".
- As eleições brasileiras de 2026 aparecem como próximo alvo: segundo a investigação da Reactionary International, o governo Netanyahu aposta nas eleições do Brasil e da Colômbia para obter governos mais alinhados, repetindo o padrão aplicado em Honduras e na Bolívia.
Reações¶
- O presidente colombiano Gustavo Petro escreveu no X: "Assim se movem as redes da extrema direita comunicacional. O dinheiro sai da cocaína e de Israel".
- A presidente mexicana Claudia Sheinbaum atribuiu a trama a um intento da "direita internacional" de difundir falsidades, mas disse que isso não a afetaria.
Autenticidade em disputa¶
- O portal hondurasgate.ch afirma ter submetido os 37 áudios ao software Phonexia Voice Inspector, da empresa tcheca Phonexia, que teria indicado vozes humanas, não geradas por IA — a metodologia está na página de checagem do portal.
- O grupo de pesquisa Earshot analisou três das gravações e as considerou autênticas "com grau moderado de confiança", provavelmente não artificiais.
- A DW ressalva que, até o momento, nenhuma instituição internacional ou perícia independente confirmou a autenticidade dos áudios. Muitas perguntas permanecem abertas.
Cobertura no Brasil¶
- Hondurasgate – coletânea de notícias do Brasil 247: a cobertura do site
- Hondurasgate, Polymarket e "frutinovelas": a desinformação nas eleições latino-americanas – MSN Brasil: o caso entre outras campanhas de desinformação
- "Hondurasgate" e a tragédia do alinhamento automático na América Latina – Latinoamérica 21, 14/05/2026: uma rede transnacional de desinformação, segundo a análise