A mentira da fraude nas urnas¶
Resumo
Bolsonaro passou anos dizendo que as urnas eletrônicas eram fraudadas e nunca apresentou uma prova. Os próprios militares dele fiscalizaram a eleição de 2022 e não acharam fraude. Antes da urna eletrônica, quem enfrentou uma tentativa de fraude na apuração foi um candidato de esquerda: Leonel Brizola, em 1982, no tempo da cédula de papel.
A fraude tentada no tempo do voto de papel¶
- Novembro de 1982 — o caso Proconsult: a votação era em cédula de papel, e a Proconsult, empresa contratada pelo TRE do Rio, processava os votos. A FGV registra que Brizola enfrentou "uma tentativa de fraude eleitoral pela empresa Proconsult", que "consistiria na transformação dos votos de Brizola em brancos e nulos". A Rádio Jornal do Brasil, com uma apuração paralela, descobriu a manobra a tempo (FGV CPDOC, verbete PDT). A Justiça Eleitoral suspendeu o trabalho da empresa, recomeçou a contagem e confirmou a vitória de Brizola (Memorial da Democracia). A PF não viu intenção no "erro" de programação, e ninguém foi punido (Revista Faces da História, UNESP, 2020). O caso completo está em Rede Globo.
A campanha contra as urnas¶
- 20/07/2021 — a promessa: Bolsonaro disse à rádio Itatiaia que ia comprovar "na semana que vem" uma fraude na eleição de 2014. O próprio Aécio Neves, derrotado naquela eleição, disse à CNN que não havia nenhum indício de fraude (CNN, 20/07/2021).
- 29/07/2021 — a live sem prova: na live em que prometeu as provas, Bolsonaro admitiu: "Não tem como se comprovar que as eleições não foram ou foram fraudadas. São indícios". Enquanto ele falava, o TSE desmentia as alegações em tempo real (Brasil de Fato, 30/07/2021). Ele ainda argumentou que, se não há prova de fraude, também não há prova de que não houve (CNN, 30/07/2021). As "provas" eram vídeos antigos com alegações falsas, que circulavam havia anos na internet (Estadão, 30/07/2021).
- 04/08/2021 — nada para o TSE: cobrado pelo corregedor do TSE, Bolsonaro mandou uma resposta curta, assinada por ele mesmo, sem nenhuma prova de fraude em 2014 ou em 2018, segundo o tribunal (CNN, 04/08/2021).
- 10/08/2021 — o voto impresso derrotado: a Câmara rejeitou a PEC do voto impresso, de Bia Kicis, por não alcançar os 308 votos necessários: foram 229 a favor e 218 contra. "Espero que este assunto esteja definitivamente enterrado", disse Arthur Lira (Agência Câmara, 10/08/2021).
- 16/12/2021 — a PF: segundo o Correio Braziliense, a PF concluiu que a live foi preparada de forma "enviesada" e que Bolsonaro teve "atuação direta e relevante" na "promoção da ação de desinformação" (Correio Braziliense, 16/12/2021).
- 12/07/2022 — fraude até na eleição que ele ganhou: Bolsonaro chegou a dizer que venceu em 2018 no primeiro turno e que a urna o levou ao segundo, e que tinha provas disso, o que a CNN classificou como mentira (CNN, 26/04/2023).
- 18/07/2022 — os embaixadores: Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para atacar as urnas. Por essa reunião, o TSE o tornou inelegível até 2030, em 30/06/2023, por 5 votos a 2 (Agência Brasil, 30/06/2023).
- 09/11/2022 — os militares não acharam fraude: o relatório das Forças Armadas sobre a fiscalização das urnas, enviado ao TSE pelo ministro da Defesa de Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira, não apontou fraude (Agência Brasil, 09/11/2022). No dia seguinte, o ministério disse que o trabalho, "embora não tenha apontado, também não excluiu a possibilidade" de fraude, sem mostrar nenhum caso (Ministério da Defesa, 10/11/2022). Paulo Sérgio Nogueira foi condenado em 2025 na trama golpista (Agência Brasil, 11/09/2025).
- 23/11/2022 — o PL multado por má-fé: o PL pediu para anular votos do segundo turno, em que Bolsonaro perdeu. Moraes mandou incluir também o primeiro turno, em que o PL elegeu sua bancada no Congresso, e o partido se recusou. Moraes então rejeitou o pedido, "esdrúxulo e ilícito", apontou uma "narrativa totalmente fraudulenta dos fatos" e multou a coligação de Bolsonaro em R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé (Migalhas, 24/11/2022).
- 21/07/2026 — Flávio e a Smartmatic: num encontro com diplomatas, o candidato Flávio Bolsonaro disse que "muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa", a Smartmatic, citada em documentos da CIA sobre a Venezuela. O TSE desmente isso desde 2017: a Smartmatic nunca forneceu nem programou urnas brasileiras, só prestou serviços de conexão de dados e voz, e perdeu para a Positivo a licitação de 2020 para fabricar as urnas (Agência Brasil, 22/07/2026). A urna eletrônica brasileira é de 1996, e a Smartmatic só foi fundada em 2000 (Aos Fatos, 24/07/2026). Os próprios documentos da CIA concluem que nem a Smartmatic nem o governo venezuelano tinham como manipular eleições fora da Venezuela (Lupa, 17/07/2026).
Ver também¶
- O roteiro da direita nas eleições: a mentira das urnas ao lado das outras formas de não aceitar a derrota, da auditoria do PSDB ao 8 de janeiro
- 8 de janeiro: o ataque que veio depois da campanha contra as urnas
- Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro
- Eleições 2022 e Eleições 2026
- Donald Trump e o trumpismo: a mesma mentira nos EUA