Corrupção no governo Bolsonaro¶
Resumo
No governo Bolsonaro, o orçamento secreto distribuiu bilhões em emendas sem dizer quem as indicava, até o STF declará-lo inconstitucional. No Ministério da Educação, o ministro Milton Ribeiro disse num áudio que priorizava os amigos de um pastor por "pedido especial" do presidente, e acabou preso pela PF. Na compra da vacina Covaxin, Bolsonaro foi avisado das suspeitas e a CPI da Pandemia atribuiu a ele o crime de prevaricação. O inquérito foi arquivado a pedido de Augusto Aras, o procurador-geral que ele escolheu fora da lista dos procuradores.
A PF indiciou Bolsonaro por peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa pela venda de joias dadas por governos estrangeiros. A PGR pediu o arquivamento, não por falta de fatos, mas por falta de uma lei clara sobre o destino desses presentes. Segundo o UOL, a família Bolsonaro comprou 51 imóveis com dinheiro vivo. Bolsonaro trocou o comando da PF no Rio e no país e disse numa reunião ministerial que não ia "esperar foder a minha família toda", e perderam o cargo o superintendente que coordenava a investigação sobre o filho 04 e delegados que investigavam o ministro Ricardo Salles. Os descontos investigados no INSS começaram em 2019, e o Banco Master cresceu sob o Banco Central de Campos Neto, indicado por Bolsonaro.
O orçamento secreto¶
- 19/12/2022 — inconstitucional: por 6 votos a 5, o STF derrubou as emendas de relator, o chamado orçamento secreto. A relatora, Rosa Weber, apontou que elas violavam a transparência, a impessoalidade, a moralidade e a publicidade por serem "anônimas, sem identificação do proponente e clareza sobre o destinatário". Em 2022, essas emendas somaram R$ 16,5 bilhões (STF, 19/12/2022).
Os pastores do MEC¶
- 21/03/2022 — "pedido especial do presidente": num áudio obtido pela Folha, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, disse priorizar os municípios dos "amigos do pastor Gilmar": "foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do [pastor] Gilmar". E completou: "o apoio que a gente pede [...] é apoio sobre construção das igrejas" (Brasil de Fato, 22/03/2022).
- 31/03/2022 — confirmado à PF: Ribeiro confirmou à PF que recebeu os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, suspeitos de intermediar verbas do FNDE para prefeituras em troca de propina, a pedido de Bolsonaro. Negou que eles tenham sido favorecidos (Brasil de Fato, 01/04/2022).
- 22/06/2022 — ex-ministro preso: na Operação Acesso Pago, a PF prendeu Ribeiro e o pastor Gilmar Santos, a partir de documentos e de um relatório da CGU sobre a liberação de verbas do FNDE (Brasil de Fato, 22/06/2022). No dia seguinte, o desembargador Ney Bello, do TRF-1, mandou soltá-los (Brasil de Fato, 23/06/2022).
A Covaxin¶
- 25/06/2021 — Bolsonaro sabia: na CPI da Pandemia, o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda e o irmão dele, o deputado Luis Miranda, contaram as pressões para liberar a vacina indiana Covaxin sem aprovação da Anvisa, com uma offshore em Cingapura no pagamento. Disseram que avisaram Bolsonaro, que prometeu providências (Rádio Senado, 25/06/2021).
- 20/10/2021 — o relatório da CPI: o relatório atribuiu nove crimes a Bolsonaro (Senado Notícias, 20/10/2021). No caso Covaxin, pediu o indiciamento de sócios e diretores da Precisa Medicamentos, da VTCLog e do FIB Bank, e das empresas Precisa e VTCLog com base na Lei Anticorrupção, sancionada por Dilma em 2013 (Lei 12.846/2013; Senado Notícias, 20/10/2021).
- 22/04/2022 — Aras arquiva: Rosa Weber tinha rejeitado, em 29/03, o pedido do procurador-geral Augusto Aras para arquivar o inquérito sobre a prevaricação de Bolsonaro. Aras mandou um novo pedido, alegando falta de "justa causa", e a ministra arquivou o caso (STF, 22/04/2022). Aras foi o primeiro procurador-geral escolhido fora da lista votada pelos procuradores (CNN, 27/11/2023).
As joias da Arábia Saudita¶
- 04/07/2024 — Bolsonaro indiciado: a PF indiciou Bolsonaro e mais 11 pessoas por desviar e vender presentes de autoridades estrangeiras, que pelas normas do TCU deveriam ir para o acervo da Presidência. Bolsonaro foi indiciado por peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa, e a venda era operada pelo ajudante de ordens Mauro Cid (Migalhas, 05/07/2024).
- 05/03/2026 — a PGR pede arquivamento: Paulo Gonet não negou os fatos. Alegou que a lei não define se os presentes recebidos por um presidente são dele ou do Estado e que, enquanto essa lacuna existir, não cabe o direito penal. O pedido contraria a PF, e o inquérito continua com Alexandre de Moraes (Congresso em Foco, 05/03/2026).
Os imóveis em dinheiro vivo¶
- 30/08/2022 — 51 imóveis: segundo levantamento do UOL, Bolsonaro, os irmãos e os filhos negociaram 107 imóveis desde os anos 1990, e pelo menos 51 foram pagos total ou parcialmente em dinheiro vivo: R$ 13,5 milhões, ou R$ 25,6 milhões em valores corrigidos. Ao menos 25 foram comprados em situações investigadas pelos Ministérios Públicos do Rio e do DF (CUT, 08/2022).
A PF a serviço da família e dos aliados¶
Bolsonaro trocou pelo menos 20 delegados da PF nos três primeiros anos de governo e cinco vezes o comando-geral, segundo a Lupa (Lupa, 16/10/2026). Um levantamento do O Povo contou 18 delegados punidos ou afastados até novembro de 2021 (O Povo, 13/11/2021). A tabela abaixo reúne os casos em que a troca atingiu uma investigação sobre a família ou os aliados do presidente.
- 22/04/2020 — "Troca o ministro!": na reunião ministerial, Bolsonaro disse: "Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final!" (📄 transcrição do vídeo, publicada pelo Poder360). Dois dias depois, o diretor-geral da PF caiu e o ministro da Justiça, Sergio Moro, saiu do governo.
- 16/10/2025 — o inquérito reaberto: a pedido do procurador-geral Paulo Gonet, Alexandre de Moraes reabriu o inquérito sobre a interferência na PF, que a própria PF, ainda no governo Bolsonaro, encerrou em 2022 sem apontar crime e que Augusto Aras pediu para arquivar. Segundo o parecer da PGR, há indícios de que Bolsonaro buscava informações privilegiadas sobre investigações sigilosas que envolviam ele próprio, a família e aliados, e é "imprescindível que se verifique com maior amplitude se efetivamente houve interferências ou tentativas de interferências" (Estadão, via Jornal de Brasília, 16/10/2025).
Caso a caso¶
| Data | Quem | O que aconteceu | O que estava em jogo | Fontes |
|---|---|---|---|---|
| 15/08/2019 | Ricardo Saadi, superintendente da PF no Rio | Bolsonaro anunciou a troca por "produtividade", e a PF desmentiu em nota que fosse por desempenho. No dia seguinte, ele disse: "Quem manda sou eu". A exoneração saiu em 30/08 | Segundo a defesa de Moro, Bolsonaro quis a troca "no mesmo mês em que a Defesa de FABRICIO QUEIROZ solicitou vistas do inquérito sigiloso" | Jornal de Brasília, 15/08/2019 · Congresso em Foco, 23/06/2020 |
| 23 e 24/04/2020 | Maurício Valeixo, diretor-geral da PF | Por WhatsApp, Bolsonaro avisou Moro: "Moro, o Valeixo sai essa semana. Isto está decidido. Você pode dizer apenas a forma: a pedido ou ex ofício". Mandou também a reportagem "PF na cola de 10 a 12 deputados bolsonaristas", com o comentário "Mais um motivo para a troca". Moro saiu do governo | As investigações sobre deputados bolsonaristas e a superintendência do Rio: "Moro você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro", segundo o depoimento de Moro, que relatou pedidos de troca também em Pernambuco | Estadão, via Jornal de Brasília, 16/10/2025 · Jornal de Brasília, 05/05/2020 |
| 29/04/2020 | Alexandre Ramagem, diretor da Abin nomeado para a PF | Moraes suspendeu a nomeação por "ocorrência de desvio de finalidade", e Bolsonaro a revogou | O lugar de Valeixo, que Bolsonaro queria dar ao chefe da Abin | Jornal de Brasília, 29/04/2020 |
| 04/05/2020 | Carlos Henrique Oliveira, superintendente da PF no Rio | No dia da posse, o novo diretor-geral, Rolando de Souza, tirou o superintendente do Rio, que foi para a direção-executiva. Tácio Muzzi assumiu em 26/05 | A superintendência que Bolsonaro cobrava de Moro | Poder360, 04/05/2020 · Congresso em Foco, 26/05/2020 |
| Abril de 2021 | Alexandre Saraiva, superintendente da PF no Amazonas | Foi afastado um dia depois de mandar ao STF uma notícia-crime contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e removido para Volta Redonda (RJ). Virou alvo de processo disciplinar | Salles, acusado na notícia-crime de dificultar a fiscalização ambiental, de advocacia administrativa e de integrar organização criminosa | Congresso em Foco, 26/04/2021 · Correio Braziliense, 22/06/2021 |
| 17/06/2021 | Franco Perazzoni, chefe da Delegacia de Repressão a Corrupção e Crimes Financeiros da PF no DF | Foi dispensado da chefia, e a cúpula da PF barrou a promoção dele, que "estava acertada", depois que a operação dele fez buscas contra Salles | A Operação Akuanduba, sobre facilitação de contrabando de madeira, que fez buscas em endereços de Salles em maio | Estadão, via A Gazeta, 22/06/2021 · Brasilagro, 23/06/2021 |
| 08/10/2021 | Hugo de Barros Correia, superintendente da PF no DF | O diretor-geral, Paulo Maiurino, o trocou por um delegado do Rio. Depois ele foi cuidar da implantação de planos de saúde na PF: "despencou do cargo depois de mexer em vespeiros, como o inquérito que investiga Jair Renan, o filho 04, e o das fake news", segundo o Estadão | O inquérito contra Jair Renan, por tráfico de influência e lavagem de dinheiro, conduzido pela PF do DF | Poder360, 09/10/2021 · JB, 13/05/2022 |
| Novembro de 2021 | Silvia Amélia Fonseca de Oliveira, delegada da PF e diretora do DRCI, no Ministério da Justiça | Foi exonerada depois de mandar adiante o pedido de extradição de Allan dos Santos. Antes, o secretário nacional de Justiça, Vicente Santini, "amigo dos filhos do presidente", reclamou que a falta de informação sobre o caso "causou um desconforto". A PF passou a investigar se houve tentativa de obstrução | A extradição do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, determinada por Moraes | Correio Braziliense, 07/12/2021 |
| 23/06/2022 | Bruno Calandrini, delegado do caso dos pastores do MEC | Um dia depois de prender o ex-ministro Milton Ribeiro, o delegado escreveu aos colegas que houve "interferência na condução da investigação", prejudicada pelo "tratamento diferenciado" dado ao ex-ministro. A PF abriu um procedimento para apurar | O caso dos pastores do MEC | Poder360, 23/06/2022 |
Casos com página própria¶
- Escândalo do INSS: os descontos investigados começaram em 2019, e a lei que acabou com a revalidação foi assinada por Bolsonaro.
- Caso Banco Master: Vorcaro virou banqueiro sob o Banco Central de Campos Neto, e Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a ele para o filme sobre o pai.
- Flávio Bolsonaro: as rachadinhas, o assessor Fabrício Queiroz e o patrimônio que cresceu 370%.
Ver também¶
- Combate à corrupção: o que os governos do PT fizeram contra a corrupção
- Escândalos de corrupção
- 8 de janeiro
- Comparação Bolsonaro x Lula 3