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8 de janeiro

Resumo

Em 08/01/2023, uma semana depois da posse de Lula, bolsonaristas invadiram e depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso e o STF. O Exército tolerou desde novembro o acampamento golpista em frente ao seu QG em Brasília, que recebeu milhares de pessoas na véspera e que, segundo o ex-comandante da PM do DF, "contribuiu muito" para o ataque. A pedido do próprio Exército, a PM desistiu duas vezes de desmontá-lo. O secretário de Segurança do DF era Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, que viajou para os Estados Unidos na véspera, antes de começarem as férias, e em cuja casa a PF achou a minuta do golpe. Alexandre de Moraes afastou o governador Ibaneis Rocha por conduta "dolosamente omissiva".

Na mesma noite, Lula mandou prender todos, segundo o próprio general que falou com ele, e Moraes mandou prender em flagrante os acampados. O comandante do Exército barrou a PM com tropas e blindados, e as prisões só aconteceram na manhã seguinte, com mais de 1.200 detidos. A mentira de que Lula armou o ataque foi desmentida pelas agências de checagem. A CPMI pediu o indiciamento de Bolsonaro e de mais 60 pessoas, os dois ministros indicados por Bolsonaro votaram para absolver réus do ataque, e em 2025 o STF condenou Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão pela trama golpista, inclusive por deterioração de patrimônio tombado. Em 2026, Lula vetou o projeto que reduzia as penas dos golpistas, e o Congresso derrubou o veto.

O acampamento que o Exército protegeu

  • Novembro de 2022 a janeiro de 2023 — o QG virou base golpista: o acampamento em frente ao QG do Exército tinha banheiro químico, cozinha industrial, geradores e estúdios para lives. Ali se planejaram os atos de 12/12/2022, dia da diplomação de Lula, e a bomba no aeroporto na véspera do Natal. Em 07/01/2023, o número de acampados saltou de 300 para pelo menos 3.800, segundo relatório da Secretaria de Segurança do DF (Meio, 03/01/2026).
  • Dezembro de 2022 — a PM barrada duas vezes: o ex-comandante da PM do DF, coronel Fábio Augusto Vieira, preso por suspeita de omissão, disse à PF que a polícia tentou desmontar o acampamento "por duas vezes", "mas não obtiveram êxito por solicitação do próprio Exército", e que o acampamento "contribuiu muito" para o 8 de janeiro, segundo o g1 (g1, 19/01/2023).
  • 18/05/2023 — "nunca foi considerado ilegal": o general Gustavo Henrique Dutra, chefe do Comando Militar do Planalto, defendeu na CPI da Câmara Legislativa do DF que o acampamento, que chegou a 100 mil pessoas em 15/11/2022, nunca foi desmontado porque "em nenhum momento o acampamento foi considerado ilegal, por nenhuma instituição" (Brasil de Fato, 18/05/2023).

O ataque e a omissão do governo do DF

  • 02 a 07/01/2023 — Torres troca o comando e viaja: Anderson Torres embarcou com a família para Orlando na véspera do ataque, segundo o Correio Braziliense. Para o interventor Ricardo Cappelli, Torres assumiu a secretaria em 02/01, trocou "quase todo o comando" e "viajou, inclusive sem estar de férias": no Diário Oficial, as férias só começavam em 09/01 (Correio Braziliense, 11/01/2023).
  • 08/01/2023 — o governo Lula assume a segurança: durante o ataque, o ministro da Justiça, Flávio Dino, mandou o secretário-executivo Ricardo Cappelli e o adjunto: "desçam lá e comandem pessoalmente a polícia militar do DF". Lula decretou intervenção federal na segurança do DF, com Cappelli como interventor (CartaCapital, 07/01/2024).
  • Noite de 08/01/2023 — Ibaneis afastado: Moraes afastou o governador Ibaneis Rocha por 90 dias, por conduta "dolosamente omissiva", e mandou dissolver em 24 horas os acampamentos em frente aos quartéis. "Absolutamente nada justifica a omissão e conivência do secretário de Segurança Pública e do governador do Distrito Federal com criminosos que, previamente, anunciaram que praticariam atos violentos contra os Poderes constituídos" (STF, 09/01/2023).
  • 14/01/2023 — Torres preso com a minuta do golpe: a PF prendeu Torres quando ele desembarcou em Brasília, vindo dos Estados Unidos. Na casa dele, a PF tinha achado a minuta de um decreto de estado de defesa no TSE para reverter o resultado da eleição (Brasil de Fato, 14/01/2023).

A noite em que o Exército barrou as prisões

  • Noite de 08/01/2023 — Lula mandou prender: segundo o general Dutra, Lula disse ao telefone: "general, são criminosos, têm que ser todos presos". Dutra alegou risco de sangue numa operação sem planejamento, e Lula respondeu: "general, isola a praça e prende todo mundo amanhã". O telefone foi passado a Lula pelo ministro do GSI, general Gonçalves Dias (Folha PE, 18/05/2023). O general já tinha contado a mesma versão à PF em abril. Ao noticiar o depoimento, a CNN lembrou que a ordem de Lula era prender e que "o exército veio com a história de que poderia ter até morte" (CNN, 13/04/2023).
  • Noite de 08/01/2023 — blindados contra a PM: Cappelli contou que, quando disse que ia entrar com a PM, o Exército fechou o Setor Militar Urbano e moveu blindados "apontados para nós". "Com certeza o Arruda impediu que eu entrasse na noite do dia 8 com a tropa da Polícia Militar", disse ele sobre o comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, que o questionou "de forma intimidatória, dizendo que tinha mais tropas" (Meio, 03/01/2026).
  • 09/01/2023 — as prisões: na manhã seguinte, como Lula tinha mandado, o acampamento foi desmontado e mais de 1.200 pessoas foram detidas (Aos Fatos, 24/05/2023).
  • 21/01/2023 — Arruda demitido: Lula demitiu o comandante do Exército, que estava havia menos de um mês no cargo (Observador, 21/01/2023).
  • 22/05/2025 — Arruda admite no STF: Moraes tinha mandado prender em flagrante os acampados na noite de 08/01, e Arruda barrou a PM "com tropas e tanques", segundo a Agência Brasil. Ouvido como testemunha de defesa de Mauro Cid, o general confirmou que, avisado de que a polícia ia prender todo mundo, respondeu: "não, isso tem que ser coordenado". Moraes o confrontou com o depoimento do ex-comandante da PM, que disse ter sido impedido de cumprir a ordem judicial por Arruda "de dedo em riste" e com a frase "minha tropa é um pouco maior que a sua". Arruda respondeu: "não lembro" (Agência Brasil, 22/05/2025).

Os responsáveis

  • 18/10/2023 — a CPMI: por 20 votos a 11, a CPMI do 8 de janeiro aprovou o relatório de Eliziane Gama, que pediu o indiciamento de 61 pessoas: Bolsonaro, oito generais, Anderson Torres, Mauro Cid e a deputada Carla Zambelli, entre outros. "Nenhum dos indiciamentos dessa comissão veio sem o devido levantamento de provas materializadas", disse a relatora (Senado Notícias, 18/10/2023).
  • 04 a 11/04/2025 — os indicados de Bolsonaro querem absolver: o STF condenou 17 réus do 8 de janeiro por 9 a 2. André Mendonça e Nunes Marques, os dois indicados de Bolsonaro, votaram para absolver todos (Poder360, 11/04/2025).
  • 11/09/2025 — Bolsonaro condenado: a Primeira Turma do STF condenou Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado. Anderson Torres também foi condenado (Agência Brasil, 11/09/2025). O voto de Cármen Lúcia, que formou a maioria, lembrou que "o 8 de janeiro de 2023 não foi um acontecimento banal" (Agência Brasil, 11/09/2025).
  • 08/01/2026 — Lula veta o alívio aos golpistas: no terceiro aniversário do ataque, Lula vetou inteiro o projeto da dosimetria, aprovado pelo Congresso, que reduzia as penas dos condenados pelo 8 de janeiro e pela trama golpista. Disse que o projeto beneficiaria quem atacou a democracia (Al Jazeera, 09/01/2026).
  • 30/04/2026 — o Congresso derruba o veto: por 318 a 144 na Câmara e 49 a 24 no Senado. A lei muda o cálculo das penas quando há mais de um crime no mesmo contexto: em vez de somá-las, vale a do crime mais grave com um acréscimo, o que tende a reduzir as condenações (Migalhas, 30/04/2026).

As mentiras sobre o 8 de janeiro

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