Eleições 2010¶
Resumo
Dilma Rousseff foi eleita a primeira mulher presidente do Brasil, com 12 milhões de votos a mais que José Serra, no fim de um governo Lula que 83% dos brasileiros avaliavam como ótimo ou bom. Um ano antes, a Folha de S.Paulo tinha publicado uma ficha de Dilma no Dops que depois admitiu não poder provar autêntica: o jornal a recebeu por e-mail, ela estava num site de extrema direita e não existia no arquivo público.
Serra fez do aborto uma arma de campanha. A mulher dele, Monica Serra, disse a um evangélico que Dilma era "a favor de matar as criancinhas". Um mês depois, ex-alunas contaram à Folha que a própria Monica relatava em aula ter feito um aborto no exílio. Na reta final, uma bolinha de papel atirada contra Serra num tumulto no Rio virou notícia nacional: ele foi ao hospital, a tomografia não acusou nada, e o Jornal Nacional dedicou sete minutos e um perito à tese de que um rolo de fita adesiva o tinha atingido. Em 2014, o documentário "O Mercado de Notícias" mostrou o braço de quem atirou a bolinha, com a mesma camisa azul de um homem que atuava na segurança de Serra, segundo o jornalista Luis Nassif.
O resultado¶
- 03/10/2010 — o primeiro turno: Dilma teve 46,91% dos votos válidos, Serra 32,61% e Marina Silva 19,33% (Wikipedia).
- 31/10/2010 — a primeira presidenta: Dilma teve 55.752.529 votos (56,05% dos válidos), contra 43.711.388 (43,95%) de Serra (Wikipedia). "Pela primeira vez nos 121 anos de história republicana, o Brasil será governado por uma mulher" (Senado Notícias, 31/10/2010).
- Dezembro de 2010 — o presidente mais bem avaliado: no último mês do governo, 83% avaliavam a gestão Lula como ótima ou boa no Datafolha. Para 84%, Lula deixaria um país melhor do que o que tinha recebido (CNN Brasil, 28/09/2022).
A imprensa na campanha¶
- 05/04/2009 — a ficha que a Folha não pôde provar: a Folha publicou uma suposta ficha de Dilma no Dops. Em 25/04, o jornal admitiu que a recebeu por e-mail, que ela estava no site de extrema direita Ternuma e que não existia no Arquivo Público de São Paulo, onde estão os documentos do Dops. O título da correção foi "Autenticidade de ficha de Dilma não é provada". Para o Observatório da Imprensa, "o correto, portanto, seria dizer que a ficha é falsa, pura e simplesmente" (Observatório da Imprensa, 25/04/2009).
A bolinha de papel¶
- 20/10/2010 — a bolinha na cabeça de Serra: num tumulto entre militantes em Campo Grande, na zona oeste do Rio, o SBT flagrou Serra sendo alvo de uma bolinha de papel ao sair de uma loja. Cerca de 15 minutos depois, Serra levou a mão à cabeça, seguiu para um hospital e fez uma tomografia, sem ferimento aparente. Foi orientado a ficar um dia em repouso (ANJ, 22/10/2018). Quem o atendeu foi o cirurgião Jacob Kligerman, que tinha presidido o Instituto Nacional do Câncer quando Serra era ministro da Saúde. Ele disse que Serra chegou "com náuseas e tonteira", mas a tomografia nada acusou (GGN, 11/04/2014).
- 21/10/2010 — os sete minutos do Jornal Nacional: o Jornal Nacional exibiu uma reportagem de sete minutos em que o perito Ricardo Molina apontava, num quadro de outro vídeo, um rolo de fita adesiva atingindo Serra. Lula comparou o caso ao do goleiro chileno Roberto Rojas, que simulou ter sido atingido no Maracanã em 1989: "Uma mentira mais grave do que a mentira daquele goleiro Rojas" (ANJ, 22/10/2018). O relato publicado pela ANJ é de um repórter que estava no ato e afirma que Serra foi alvo de objetos e "possivelmente acertado por algum deles".
- Abril de 2014 — o documentário: "O Mercado de Notícias", de Jorge Furtado, reconstituiu o episódio. Segundo Luis Nassif, uma cena da TV Bandeirantes mostra o braço de quem atirou a bolinha, com uma camisa azul. Outras cenas mostram, no mesmo local e pouco antes do arremesso, um homem de camisa azul e outro de camisa vinho perto de Serra, "atuando na sua segurança" (GGN, 11/04/2014).
O aborto como arma¶
- 14/09/2010 — "matar as criancinhas": em Nova Iguaçu (RJ), Monica Serra disse a um vendedor ambulante evangélico de 73 anos, que declarou voto em Dilma, que a petista era "a favor de matar as criancinhas", segundo a Agência Estado, que testemunhou a cena (Estadão, via Viomundo, 16/10/2010).
- 16/10/2010 — o aborto de Monica Serra: a Folha publicou o relato de ex-alunas de Monica Serra na Unicamp: em 1992, numa aula, ela teria contado que fez um aborto no exílio, no Chile, porque o futuro do casal era incerto. A reportagem questionava o discurso de Serra, que se dizia contra o aborto por "valores cristãos" (Folha de S.Paulo, via Viomundo, 16/10/2010; Sagres, 17/10/2010).
Ver também¶
- O roteiro da direita nas eleições: a ficha falsa de Dilma, a bolinha e o aborto como arma ao lado do que se repetiu nas outras eleições
- Bolsonarismo contra o Estado laico: a religião como arma eleitoral hoje, da promessa de Flávio ao caso de Nossa Senhora Aparecida
- Rede Globo: outros casos de manipulação da emissora
- Comparação FHC x Lula e Dilma: os números dos governos do PT
- Eleições 1989, Eleições 1994, Eleições 1998, Eleições 2002, Eleições 2006, Eleições 2014, Eleições 2018 e Eleições 2022